Emagrecimento alugado: o que acontece quando a caneta acaba?
Medicamentos podem transformar o tratamento da obesidade.
O resultado duradouro exige cuidado contínuo e um plano de manutenção.
Por Prof. Dr. Carlos Machado | Nefrologia e Clínica Geral

Ilustração editorial: os pilares de um cuidado que continua além da balança.
Você emagreceu – ou alugou um corpo mais magro enquanto consegue pagar pela caneta? A provocação chama atenção para o custo e a continuidade do cuidado. Mas não pode virar julgamento: precisar de medicamento não é fracasso, e recuperar peso não significa falta de força de vontade.
Uma doença crônica, um cuidado de longo prazo
A obesidade resulta da interação entre biologia, ambiente, condições de vida e comportamento. É uma doença crônica, com tendência à recorrência. Em sua diretriz de 2025, a Organização Mundial da Saúde admite terapias GLP-1 como opção de longo prazo para adultos com obesidade, em recomendação condicional e dentro de um cuidado abrangente. [3]
Semaglutida e liraglutida atuam no receptor de GLP-1; a tirzepatida combina ação nos receptores de GIP e GLP-1. Podem reduzir a fome, aumentar a saciedade e favorecer perda de peso relevante. Quando bem indicadas, são ferramentas médicas eficazes. A decisão de iniciar, manter ou suspender exige avaliação individual.
O que acontece depois da retirada?
Na extensão do STEP 1, com 327 participantes, o grupo que recebeu semaglutida 2,4 mg perdeu, em média, 17,3% do peso em 68 semanas. Um ano após a retirada, recuperou 11,6 pontos percentuais: cerca de dois terços do que havia perdido. O peso ainda ficou, em média, 5,6% abaixo do inicial. Também foi encerrada a intervenção estruturada de hábitos; a análise de seguimento foi exploratória. [1]
No SURMOUNT-4, 670 adultos sem diabetes foram sorteados após 36 semanas de tirzepatida e perda média de 20,9%. Nas 52 semanas seguintes, quem passou a placebo ganhou 14,0% de peso; quem continuou perdeu mais 5,5%. Esses percentuais usam como referência o peso na semana 36, não o peso inicial. Ambos os grupos mantiveram orientação de alimentação e atividade física. [2]
UM DADO IMPORTANTE
Os estudos mostram médias de grupos, não destinos individuais. Não dizem que todos voltarão a engordar nem que hábitos são inúteis. Mostram que a manutenção precisa ser planejada – e pode incluir medicação por longo prazo.
Hábitos que acompanham o tratamento
A menor fome pode abrir espaço para reorganizar a rotina, mas não garante uma alimentação adequada. Priorize alimentos in natura ou minimamente processados, refeições possíveis no dia a dia e fontes de proteína ajustadas às suas necessidades. Uma Dieta Saudável, como a Dieta de Adão e Eva proposta pelo Dr. Machado pode ajudar a evitar restrições excessivas e deficiências nutricionais.
Exercício não serve apenas para gastar calorias. Caminhar, pedalar ou nadar ajuda a saúde cardiovascular; exercícios de resistência, como musculação ou movimentos com o peso do corpo, ajudam a preservar força e massa muscular durante o emagrecimento. O programa deve ser progressivo e adaptado à condição clínica. Perder peso também pode reduzir massa magra; proteína e treino de força merecem atenção conjunta. [4]
Sono regular, avaliação de apneia quando indicada e apoio para lidar com estresse, alimentação emocional e dificuldades de rotina completam o cuidado. Mudanças sustentáveis exigem metas realistas, acesso e acompanhamento. Hábitos ajudam a saúde com ou sem caneta, mas não garantem, sozinhos, que o peso perdido será mantido.
A CANETA PODE AJUDAR A EMAGRECER.
ELA NÃO PODE MUDAR SEUS HÁBITOS POR VOCÊ.
Benefícios reais, riscos que precisam ser acompanhados
Náusea, vômitos, diarreia e constipação estão entre os efeitos adversos mais comuns. As bulas também alertam para pancreatite, problemas da vesícula e desidratação, que pode comprometer os rins. Dor abdominal forte e persistente ou dificuldade de manter líquidos exigem avaliação. Contraindicações, gravidez, outros medicamentos e histórico de saúde precisam ser discutidos antes do uso. [5]
Esses riscos não anulam os benefícios nem justificam afirmar que as canetas provocam complicações inevitáveis. Dose, tolerância e resposta devem ser acompanhadas. O tratamento não deve ser iniciado, ajustado ou interrompido por conta própria.
Antes de começar, pense em como continuar
Converse sobre custo, acesso, objetivos de saúde e o que fazer se houver efeitos adversos ou necessidade de suspensão. Acompanhe peso, cintura, força, pressão e exames quando indicados. Se o dinheiro acabar, procure a equipe para reorganizar o cuidado; não espere a recuperação de peso avançar para pedir ajuda.
A pergunta decisiva vai além de quantos quilos a caneta tira: qual estratégia será possível manter? Tratar uma doença crônica pode exigir medicamento contínuo. Alimentação, movimento, sono e acompanhamento devem fazer parte desse plano desde o início.
Prof. Dr. Carlos Machado | Especialista em Nefrologia e Clínica Geral.
Artigo de divulgação científica.
ESCOLA PAULISTA DE MEDICINA – UNIFESP | UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO
Professor de Medicina em 3 Universidades | Pós-Doutorado – CORNELL UNIVERSITY
MEMORIAL SLOAN-KETTERING CANCER CENTER
Autor do livro: “Você é o que você come…”
@DrCarlosMachado (Instagram, TikTok, YouTube) | Consultório WhatsApp +55 11 94565-1396
Perfil profissional: beacons.ai/drcm
FONTES E REFERÊNCIAS
[1] Wilding JPH et al. STEP 1 extension. Diabetes Obes Metab. 2022;24:1553-1564.
doi:10.1111/dom.14725 · [2] Aronne LJ et al. SURMOUNT-4. JAMA. 2024;331:38-48.
doi:10.1001/jama.2023.24945 · [3] OMS. Obesity: GLP-1 therapies. 2 dez. 2025.
who.int/news-room/questions-and-answers/item/obesity-glp-1-therapies
[4] Mozaffarian D et al. Nutritional priorities to support GLP-1 therapy for obesity. 2025.
doi:10.1016/j.ajcnut.2025.04.023 · [5] DailyMed. Wegovy e Zepbound: bulas profissionais vigentes.
dailymed.nlm.nih.gov (semaglutida); Zepbound (tirzepatida). Consulta: 1º out. 2026.