A taça que virou rotina: os anestésicos silenciosos do esgotamento.
Álcool no fim do dia, rolagem infinita, compras por impulso. Recursos socialmente aceitos que aliviam a noite e cobram a conta no dia seguinte.
A frase costuma vir acompanhada de um sorriso, como quem antecipa um julgamento que não virá: “não é nada demais, doutora, só uma taça no fim do dia para desligar”. Pergunto há quanto tempo. A resposta, com frequência, é: todos os dias, há uns dois anos. E nesse ponto já não estamos falando sobre bebida. Estamos falando sobre o que acontece com uma pessoa que precisa de ajuda externa para conseguir desacelerar.
Quero ser clara quanto ao enquadramento: isto não é um texto moral. O esgotamento produz uma demanda fisiológica urgente por alívio, e existem recursos amplamente disponíveis e socialmente aprovados que entregam esse alívio em minutos. Álcool à noite, horas de rolagem na tela, compras por impulso, comida usada como regulação emocional. Eles não são escolhas absurdas. São escolhas eficientes — e é exatamente por isso que se repetem.
O mecanismo é honesto no curto prazo. Um sistema nervoso que passou o dia inteiro em ativação encontra nesses recursos uma redução rápida da tensão e uma recompensa imediata. Para alguém sem energia sobrando, qualquer alternativa que exija esforço — caminhar, conversar, cozinhar, ler — perde a disputa antes de começar. Não é falta de disciplina. É um cálculo de custo feito por um organismo em déficit.
A conta, no entanto, chega pela via mais sensível de todas: o sono. O álcool costuma encurtar o tempo até adormecer, o que dá a impressão de que está ajudando, mas fragmenta a segunda metade da noite, aumenta os despertares e reduz a fase mais restauradora do sono. A pessoa dorme pior justamente na noite em que mais precisava reparar. As telas operam pelo outro extremo, atrasando o início do sono e prolongando a ativação em um corpo que já não estava desacelerando.
Fecha-se então um ciclo previsível: sono pior, menos tolerância no dia seguinte, mais tensão acumulada à noite e maior necessidade do mesmo recurso para conseguir parar. O que começou como alívio ocasional vira estrutura da rotina, e a pessoa passa a atribuir à idade, ao trabalho ou à própria natureza um cansaço que está sendo produzido todas as noites.
Alguns marcadores ajudam a distinguir hábito de sinal de alerta, e nenhum deles tem a ver com quantidade absoluta. O primeiro é a perda de escolha: o recurso deixou de ser uma opção entre outras e virou a única forma de encerrar o dia. O segundo é o aumento progressivo, em dose ou em frequência, para obter o mesmo efeito. O terceiro é a presença de culpa ou de ocultação. E o quarto, o mais importante: a impossibilidade de desacelerar sem ele.
Entre os 40 e os 60 anos, essa equação muda de peso. O álcool interage com um sono que já tende a ser mais fragmentado nessa fase, pode intensificar sintomas vasomotores como ondas de calor e suores noturnos, afeta o humor e interage com medicamentos de uso contínuo. O mesmo hábito que parecia inofensivo aos 30 passa a cobrar visivelmente mais caro — e muitas mulheres percebem essa mudança sem conseguir explicá-la.
O que funciona, na prática, raramente é força de vontade. É entender qual função aquele recurso está cumprindo. Se ele está resolvendo a ausência de transição entre o trabalho e a casa, o alvo é criar essa transição. Se está resolvendo solidão, o alvo é outro. Se está resolvendo dor, insônia ou ansiedade instalada, estamos diante de sintomas que pedem avaliação, e não de um hábito a ser corrigido pela disciplina. Retirar o recurso sem substituir a função é o caminho mais curto para a recaída.
Existe ainda um par que costuma operar em conjunto e raramente é examinado: a cafeína pela manhã e o álcool à noite. Uma serve para compensar o sono que não houve, o outro para interromper a ativação que sobrou. O primeiro atrasa o adormecer da noite seguinte; o segundo piora a qualidade do sono que vier. No dia seguinte, a dose de cafeína precisa ser um pouco maior. É um circuito fechado, construído sem intenção nenhuma, que muita gente sustenta durante anos sem perceber que as duas pontas se alimentam.
A comida entra pela mesma porta, e com uma camada adicional de culpa. Comer à noite, depois que a casa silencia, costuma ser o único momento do dia em que aquela mulher faz algo exclusivamente para si. Não é fome: é a única janela de prazer numa rotina organizada em função dos outros. Tratar isso como indisciplina alimentar erra o alvo — o que precisa mudar não é o cardápio, e sim a ausência de espaço próprio no dia.
Uma última observação, dirigida a quem está lendo e se reconheceu: vale levar esse assunto à consulta exatamente como ele acontece, sem arredondar. Omitir a frequência real por antecipar julgamento é comum e prejudica a avaliação, porque o uso de álcool interage com sono, humor, sintomas da transição hormonal e medicações eventualmente em curso. Essa informação não serve para condenar ninguém. Serve para entender o que está sendo tratado — e o que ainda não está.
Nada disso é falha de caráter. É uma tentativa legítima de autorregulação em um corpo que está pedindo socorro do jeito que consegue. O problema é que anestesia não trata — apenas garante que a dor continue chegando, todas as noites, um pouco mais cedo.
Dra. Rochelle Marquetto é médica psiquiatra — CRM-RS 39448 · RQE 43138 — e atua com abordagem integrativa no cuidado de quadros de esgotamento. Contato: (21) 96832-9009.